quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Lamento Paterno [Autor: Getúlio Dutra]


No pastoreio da vida, fui pastor da ilusão
construi rancho e galpão, fiz canteiros e plantei flores
Os bretes e corredores, que eram tudo pra mim
Transformei em jardim, na ansia de mil-amores.

As sementes germinaram, veio plantas lindas e viçosas
jasmins, cravos e rosas, ficou um rancho enfeitado
Assim como um reino encantado, das estórias de ficção
Como se o Deus ro rincão, estivesse no meu costado.

Os tempos foram passando, e o jardim afloreceu
ri feliz, é fruto meu, eis as flores posso vê-las
como se as próprias estrelas, comentassem as escondidas
ver mais tarde carcomidas, no jardim ja não mais te-las.

Camperiei rincão afora, fiz meu rancho, plantei flor
fiz pedidos pra o Senhor, meu Patrão e Pai eterno
pra que no rigor do inverno, por nada o castigasse
e que jamais transformasse, meu paraiso em inferno.

Mas o tempo foi passando, foi passando despcito
e o Patrão do infinito, de mim foi se esquecendo
as flores foram crescendo e junto cresceu espinhos
e meu jardim de carinhos, foi aos poucos morrendo.

A planta que brotou viçosa, o botão que virou flor
o canteiro de amor, como o poeta denomina
as ervas de rapina, atacaram sem piedade
e mais uma vez a verdade cumpre-se a amarga sina.

E na data consagrada aos pais, fico triste nesse dia
na porta o nostalgia que é prenuncio da dor
faz de mim um pensador, onde foi que errei
será mesmo que plantei, espinhos em vez de flor.

E fatalmente no meu rancho, na hora do chimarrão
fico a olhar para o chão, antes um lindo jardim
transformado num traste assim, nem parece aquele que era
vejo o fantasma da tapera, dando risada de MIM.

Adeus à sete Quedas [Autor: Carlos Drummond de Andrade]


Sete quedas por mim passaram,
e todas sete se esvaíram.
Cessa o estrondo das cachoeiras,
e com ele a memória dos índios, pulverizada,
já não desperta o mínimo arrepio.
Aos mortos espanhóis, aos mortos bandeirantes,
aos apagados fogos
de Ciudad Real de Guaira vão juntar-se
os sete fantasmas das águas assassinadas
por mão do homem, dono do planeta.

Aqui outrora retumbaram vozes
da natureza imaginosa, fértil
em teatrais encenações de sonhos
aos homens ofertadas sem contrato.
Uma beleza-em-si, fantástico desenho
corporizado em cachões e bulcões de aéreo contorno
mostrava-se, despia-se, doava-se
em livre coito à humana vista extasiada.
Toda a arquitetura, toda a engenharia
de remotos egípcios e assírios
em vão ousaria criar tal monumento.

E desfaz-sepor ingrata intervenção de tecnocratas.
Aqui sete visões, sete esculturas
de líquido perfil
dissolvem-se entre cálculos computadorizados
de um país que vai deixando de ser humano
para tornar-se empresa gélida, mais nada.

Faz-se do movimento uma represa,
da agitação faz-se um silêncio
empresarial, de hidrelétrico projeto.
Vamos oferecer todo o conforto
que luz e força tarifadas geram
à custa de outro bem que não tem preço
nem resgate, empobrecendo a vida
na feroz ilusão de enriquecê-la.
Sete boiadas de água, sete touros brancos,
de bilhões de touros brancos integrados,
afundam-se em lagoa, e no vazio
que forma alguma ocupará, que resta
senão da natureza a dor sem
gesto,
a calada censura
e a maldição que o tempo irá trazendo?

Vinde povos estranhos, vinde irmãos
brasileiros de todos os
semblantes,
vinde ver e guardar
não mais a obra de arte natural
hoje cartão-postal a cores, melancólico,
mas seu espectro ainda rorejante
de irisadas pérolas de espuma e raiva,
passando, circunvoando,
entre pontes pênseis destruídase o inútil pranto das coisas,
sem acordar nenhum remorso,
nenhuma culpa ardente e confessada.
(“Assumimos a responsabilidade!
Estamos construindo o Brasil grande!”)
E patati patati patatá...

Sete quedas por nós passaram,
e não soubemos, ah, não soubemos amá-las,
e todas sete foram mortas,
e todas sete somem no ar,
sete fantasmas, sete crimes
dos vivos golpeando a vida
que nunca mais renascerá.
Quem eu sou?




O mundo deveria ser feito de mendigos e crianças

Minha filha de seis anos

Será a governante de meu país

E eu me renderei à inutilidade de ser homem grande

Não peço, nem dou esmolas



Pois, infância eu deixei pra trás


Pra ser o que não sou hoje.




Eu gostaria de estar;


Estar é um instante invisível.

Não é possível nem sentir,

(Porque sentir é lembrar do que aconteceu

a menos de um segundo atrás,

já passado.)

De estar gostaria,

Se ao menos me mentisses

Que Deus também é Ele próprio.

Mas inerente ao ser - o ser

só aquilo que está constantemente.



E como nada é constante,

não sou um qualquer nada,

mas não sou nada.



O tudo nada mais é que um conjunto de vazios,

que sozinhos, não dá um só átomo,

mas não qualquer átomo.

Até o qualquer vira indispensável quando o universo o aceita.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Pincéis Cansados [Autor: Rodrigo Russell]






Ao som das águas
Que esbravejam tão alegres
Procuro um canto mais sereno
Que o lar de nosso mundo

O teu verde me encanta de esperança
Que a tua força vai tocar o meu amor
Lá no mais alto profundo
Desejo desumano de humanidade!

Gritei aos nossos passos!
E nada adiantou
Hoje, foi tudo tão estranho
Os estilhaços...
Que me chamaram...

Hoje de manhã
Em súbito, olhei para ti, Cataratas...
Me perdi, me perdi no teu olhar por sobre as aguas
E senti algo nunca antes acontecido
Fugido de tal vida entristecida

À tarde me veio um arrepio...
Era um anjo que vinha de passagem
Pouco entendi, não sabia o seu nome
Ele se apresentou
Como verdade,
Realidade...

E a terra que tremia muito forte
Ficou distante
E veio um grão que me bateu
E deixou-me inconsciente
Morto ao mundo.
Era o amor revestido em minha cruz

Me levou para um outro mundo
O mundo em que tudo existe
Pois só quem tem amor
Consegue entender
Agora sou
A mais feliz de todas as mulheres
Sou uma gota d'água
Em ti, Cataratas!

Agora vejo um horizonte
Sou aquele olhar que me olhava
Ali! Ali ha um olhar de desesperança...
Vamos! O amor ainda tem quem salvar...
Venha, minha menina,
Menina de Foz,
Bem vinda ao nosso mundo!